3.4t

29 agosto – 05 setembro 2026




Texto por
Olivia Abrahão



Terra enquanto território, terra enquanto matéria, duas das muitas condições inerentes a uma mesma palavra que em 3.4t o escritório de arquitetura Arquipélago escolhe explorar de forma física e, ao mesmo tempo, metafórica. Desde os primórdios, terra é motivo de disputa, e talvez essa tensão entre o abundante e o delimitado – da passagem entre o que se oferece em abundância e o que se divide, demarca e fragmenta – seja o que a torna um tema tão central na contemporaneidade.

Se hoje quase todo canteiro de obra segue um mesmo procedimento inaugural – abrir um buraco, retirar a terra e descartá-la como resíduo –, 3.4t propõe uma inflexão nesse mesmo processo construtivo: recolhe 3400 quilos de terra das muitas obras ao redor do Soda e, ao trazê-la à superfície, devolve o protagonismo que um dia lhe foi roubado. Como quem evoca a aura de um elemento cosmogônico adormecido, a instalação grifa o que permaneceu silenciosamente presente enquanto deixávamos de perceber sua existência. Depois de, entre 1920 e 1940, abrigar a Hípica Paulista, esse mesmo conjunto de quadras deu vez aos chamados “predinhos da Hípica”, um empreendimento privado de uso misto voltado então à classe média e que nos últimos anos se tornou ponta de lança no redesenho frenético e especulativo que marca o bairro e a cidade de São Paulo.

Hoje, Arquipélago propõe a ocupação do que um dia foi uma vaga de automóvel através da construção de novas topografias. Retraça curvas num espaço de linhas ortogonais, utilizando, para isso, a cultura construtiva da taipa de pilão – um modo de fazer que vem resgatando em seus projetos, em diálogo com os mestres de ofício que ainda o detêm. Terra batida e terra solta, que, moldadas in loco, reagem ao processo de compactação e descompactação. O molde que dá forma aos montes, desenvolvido em colaboração com Pierre, marceneiro e parceiro de outros projetos do escritório, é uma estrutura exuberante cujas formas resultantes parecem, numa espécie de geotropismo, se elevar novamente como montanhas.

Para além da imagem, 3.4t contempla uma pesquisa surpreendentemente técnica a respeito do coeficiente de atrito do material ou, em outras palavras, sobre a força invisível que define até onde cada tipo de terra resiste antes de ceder ao próprio peso. É justamente essa diferença que determina o ângulo de cada monte e a maneira como cada punhado de terra consegue se verticalizar antes do desabamento iminente. O processo que parece pertencer apenas aos laboratórios de física, não deixa de remeter às memórias da infância, como as de virar um balde de areia no chão e ver um monte se formar diante dos olhos.

Esse impulso de pesquisa – quase arqueológica – de buscar no território resquícios de materiais, de usos e de vida e, dos achados, extrair o partido de cada projeto é o que orienta a prática do Arquipélago. Para Luís Tavares e Marinho Velloso, a arquitetura é como uma lente que se renova a cada contexto: cada lugar oferece uma resposta, e cada processo, suas próprias referências. Em seu portfólio organizam os projetos a partir de duas operações: “chão-gravidade” e “céu-leveza”. Aqui, os arquitetos optam por permanecer no chão, ainda que a gravidade e a leveza sigam como características intrínsecas ao trabalho.

Dentre as inúmeras possibilidades que esse material carrega, de poder assumir diferentes formas e se tornar tantas coisas por vezes tão grandiosas, em 3.4t Arquipélago opta por assumir a condição mais pura e singela, a de ser apenas grãos – ainda não delimitados – que se acumulam, se misturam e se reorganizam sob a ação do peso diante da vulnerabilidade da mistura e do risco da mudança.



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Créditos das imagens:
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Pedro Kok

© Duto
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